2 de agosto de 2017

Resenha: Confissões do Crematório de Caitlin Doughty

livro Confissões do Crematório de Caitlin Doughty - Editora Darkside Books






A gente evita pensar na morte, um tema que é muito tabu na nossa sociedade. Para refletir isso, Caitlin Doughty, ex operadora de forno de crematório e youtuber no canal Ask a Mortician, escreveu o livro Confissões do Crematório. Nele, ela tenta nos aproximar do tema, suavizando a ideia que temos sobre a morte ser algo obscuro. Na verdade, um velho ditado cabe bem aqui: “a única certeza que temos na vida é a morte”. Todos vamos morrer e alguém vai ter que lidar com nosso sepultamento ou cremação. Não seria mais fácil deixarmos nossos familiares e amigos sentirem a dor da perda, ao invés de terem que lidar com preparativos para o funeral e assinar documentação? Pois a autora nos fala justamente isso: é preciso pensar em nossa própria morte.

“Embora você possa nunca ter ido a um enterro, dois humanos no planeta morrem por segundo. Oito no tempo que você levou para ler essa frase. Agora, estamos em quatorze.”

Caitlin nos leva a uma viagem com ela, desde sua infância – onde desenvolveu um Transtorno Obsessivo Compulsivo por não saber como lidar com a morte – passando por sua faculdade em História Medieval, onde ela devorou tudo sobre o tema morte – culminando em seu trabalho no crematório e em seus outros estudos e engajamentos sobre a indústria. Ela nos mostra o quanto é importante explicarmos para as crianças sobre a morte, ainda que obviamente precise ser de uma maneira mais sutil, mas sem usar a famosa história de “virou florzinha” (ou qualquer variante dela). 
 
livro Confissões do Crematório de Caitlin Doughty - Editora Darkside Books

 
Em suas críticas sobre a indústria obituária nos Estados Unidos, Doughty nos fala sobre como os cadáveres são preparados para que no velório pareçam vivos. Se você já foi a um funeral, deve ter ouvido a frase “olha como está sereno no caixão, parece até que está sorrindo” ou “parece que está só dormindo”. Na verdade, tudo é feito para que realmente pareça assim, desde o embalsamento, que conserva o corpo por muito tempo, até a maquiagem e os preenchimentos internos para dar mais volume, principalmente no rosto da pessoa. Catilin defende que tratar a morte dessa forma faz com que não vivenciemos nossos lutos da maneira que deveriam ser vivenciados. Todo esse mascaramento é feito para não termos que lidar com o fim da vida.

“Um cadáver não precisa que você se lembre dele. Na verdade, não precisa de mais nada – fica mais do que satisfeito de ficar ali, deitado, apodrecendo. É você que precisa do cadáver. Ao olhar para o corpo, você entende que a pessoa se foi, que não é mais uma participante ativa no jogo da vida. Ao olhar para o corpo, você se vê nele e sabe que também vai morrer.”


Falando assim, até parece que o livro tem uma narrativa pesada e desconfortável, mas posso garantir que não. Ok, algumas partes são meio explícitas, mas todas suavizadas com a escrita de Doughty. Ela nos conduz às suas histórias sobre a morte com a maior leveza possível, nos apresentando a um cenário detalhado, nos familiarizando com outros personagens envolvidos (vivos e não vivos, haha!) e até sendo cômica em diversos momentos. O humor dela é bem peculiar (o famoso humor negro), é verdade, mas acredito que quando a pessoa vive cercada pela morte, esse é o único humor possível. 
 
livro Confissões do Crematório de Caitlin Doughty - Editora Darkside Books



“A morte é o motor que nos mantém em movimento, que nos dá motivação para realizar, aprender, amar e criar.”

Ficha Técnica
Título: Confissões do Crematório
Autora: Caitlin Doughty 
Tradutora: Regiane Winarski 
Editora: DarkSide Books
Ano: 2016
Páginas: 260

3 comentários:

  1. Hey tudo bem?

    Nunca tinha ouvido falar dela muito menos do livro. O tema morte ainda é mesmo um tabu, isso acaba envolvendo diversas religões e pensamentos tradicionais a respeito. Acho bem complicado as pessoas aceitarem a morte como ela é sabe? Ter que olhar para o caixão e não ver aquilo que esperava, isso envolve muito sentimento e tem que ter coragem e determinação para escrever sobre isso. De fato iremos morrer um dia né? Mas acaba sendo tão estranho pensar sobre isso. No meu caso eu preferia pensar na minha própria morte e não gostaria que meus familiares se preocupassem com documentação ou coisas do tipo, é chato muito chato. Me faz lembrar épocas tensas de luto, enfim.
    Adorei sua resenha. Vou procurar saber mais sobre o livro, gosto deste tipo de informação e assunto.

    https://blogimaginantes.blogspot.com.br/

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  2. Faz pouco tempo que esse livro chegou na livraria onde eu trabalho e achei que fosse uma história fictícia - que equívoco meu. Foi a primeira resenha dele que eu li e já até postei um dos quotes no meu facebook, hahah. Gostei demais, fiquei super interessada. Quero lê-lo.


    Beijo!
    CONTROVÉRSIAS.

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  3. O livro parece incrível! Já lidei muito com a morte, por isso acho que eu tenho uma certa tranquilidade pra falar no tema. Já informei a todo mundo que quero ser cremada. Vou ser um cadáver, não quero mais nada! Só não quero dar trabalho. :)

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